eMPathia Jazz Duo

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"Spritz" faz uma viagem musical à Itália dos anos 50

A perseverança e gana de vencer em sua profissão são as marcas da italiana Mafalda Minnozzi. Nascida em Pávia, norte da Itália, a virginiana cresceu ao som da música clássica e das histórias de seu pai, profissional da hotelaria que conviveu com a nata da sociedade italiana da época. “Meu pai se transferiu para Milão nos anos 60 e quando ia visitar eu e minha mãe eram muitas histórias de glamour. Aquilo tudo me encantava”, contou a cantora durante entrevista exclusiva ao Shopping News, um dia após a gravadora finalizar seu novo álbum “Spritz”, que será apresentado ao público paulistano no Tom Jazz, em duas únicas apresentações, que acontecem  nesta sexta-feira e sábado.  
Alegria marcada por fortes emoções marcaram o bate-papo realizado com a cantora que relembrou o início de sua carreira e seus primeiros contatos com o Brasil, em especial a cidade São Paulo, que escolheu para residir desde 2005. “Senti aqui um elo entre os imigrantes, pois mostrei a eles que existia uma nova Itália através da música”, explicou.
E aqueles que querem relembrar os tempos de fascínio e romantismo da Itália, “Spritz” — nome de um famoso coquetel italiano, à base de vinho e soda — passeia pelas lembranças dos anos 50 e 60.  O álbum que já é o predileto da cantora conta com  as participações especiais de artistas brasileiros, como a carioca  Isabella Taviani, que no disco  faz um dueto com Mafalda Minnozzi, na canção “Metti Una Sera A Cena”;  o solista e acordeonista Toninho Ferragutti, em “Roma Nun Fa La Stupida Stasera”; o clarinetista Alexandre Ribeiro, em “Via Con Me” e “Tu Vuo’ Fa l’Americano”, e o trombonista Bocato, “em Arrivederci”. Um time que unido ao time de Mafalda, composto por Paul Ricci na guitarra, Rubem Farias no baixo acústico, Marco da Costa na bateria e Agenor de Lorenzi no piano e acordeom resultou em um contagiante “Spritz”.
Como inicia o seu contato com a música?
Começou na escola e na igreja. No colégio tive a sorte de ser estudante de uma entidade de freiras, onde na grade curricular eram obrigatórias as aulas de música. Isso quando eu morava no norte da Itália, mas  senti falta quando nos mudamos para o centro do país, onde dei início a aulas particulares. Sempre fiz canto e para ampliar minha formação iniciei em um coral. Morei em um antigo distrito do estado do Vaticano, onde tinham sementes de corais gregorianos e antigas partituras oriundas da Idade Média. Estudávamos com professores, em sua maioria padres formados em música conservatória. Em casa, desde criança ouvia as histórias que meu papa [pai] via em seu trabalho de barman, pois ele trabalhava na hotelaria. Teve contato com muitas pessoas formadoras de opinião, como artistas, jornalistas, cantores, entre outros. Ele se transferiu para Milão, no disputado Hotel Savoia Milan, nos anos 60, quando a cidade era marcada pelo glamour e frequentada pelo high society  do mundo. Foi nessa época que o cinema americano olhou para Roma, a música italiana teve influencia americana, descobriu-se a moda, a decoração, as artes, e até as fofocas, pois nascia o paparazzi. Quando meu pai retornava para casa contava tudo para mim e para minha mama [mãe] e tudo me encantava.

Mas diante de tantas contações de histórias, quem musicalmente falando você gostava de escutar?
Caterina Valente, uma jazzista italiana que transitava com o Brasil nos anos 60, onde fazia shows no Copacabana Palace. Era a minha ‘ídola’. Outra que gostava era a Nina, uma cantora eclética. Ela era a nossa Elis Regina. Outra diva era a Dalida. Todas elas cantavam o glamour, todo o amor sofisticado. Era um período de elegância íntima que encantava a todos, como a minha mãe, uma costureira simples que era cativada por tais artistas. Essas grandes vozes tinham um espaço para entrar nessa realidade efervescente da cidade
Quando decide partir para a música como profissional?
Fui para Roma nos anos 90. Lá cheguei em 22 de setembro de 1991, onde quis alugar uma kitnet perto de onde transitavam os grandes artistas e também aqueles que nada tinham. Através de um amigo, um colecionador de carros antigos, consegui meu primeiro teste em uma casa de shows chamada Hostaria dell’Orso, perto da Praça de Espanha. Um lugar que mudou minha vida, pois lá pude mostrar ao público o que eu gostava, algo que não poderia fazer em minha terra natal. 
Como foi essa estreia? Quais foram suas impressões?
O que mais me impressionou foram os vitrais, a decoração do espaço. Ali era  um museu. Eu comecei a cantar e todos estavam conversando. Eu era da província e consegui conquistar o público de uma cidade grande. Foi uma apresentação intimista. Fiquei naquela casa de shows ao longo de cinco anos e lá consegui cantar o meu repertório. Cantava na sessão da meia-noite, e conseguia  mesclar  canções de Sinatra, Edith Piaf, entre outros artistas. Fiquei este período em Roma e não tinha em mente a dimensão do todo. Tive muita vontade de aprender e fui perseverante ao longo da minha vida. Eu estava em um palco de mil vitrines,  onde entrava a Liza Minelli, a Izabella Rossellini, Ingrid Bergman, entre outros tantos nomes famosos. Toda a alta sociedade dos anos 90 frequentava a casa. As pessoas me viam lá e me contratavam ou me convidavam. Eu morava ao lado da casa do Frederico Fellini. Esse público me fez fazer apresentações por diversos países da Europa, mas o Brasil foi o primeiro país fora do continente onde me apresentei.
E qual era o seu contato com a música brasileira?
Para ser sincera quase nenhum.  Quando se fala de música brasileira não é somente a bossa nova. Sou sincera ao dizer que na época não tinha essa dimensão do todo. Era uma imensidão de musicalidade brasileira. Agora por exemplo estou próxima da discografia do Paulinho da Viola e estou amando. Hoje conheço alguns artistas brasileiros como a Maria Bethânia, o Milton Nascimento. E, ainda tem os novos talentos como a Maria Gadú, a Mariana Aydar, a Ceu. Tudo isso tive contato aqui e não na Europa. Aliás, os europeus não conhecem essa qualidade musical que existe neste país. Quando se pensa no Brasil,  infelizmente, ainda remete ao apelo sexual do samba. Algo importante foi o Brasil mostrar seu lado eclético na festa de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, e confesso que não vejo a hora de ver o mundo conhecer este Brasil.
Como você aportou neste Brasil?
Marli Sampaio, gerente da Paradiso, no Rio de Janeiro, assistiu uma apresentação minha em Roma, pois ela  ia conhecer artistas da Europa e fazer os convites para apresentação no Brasil. Certa vez ela me contou que gostou de mim, pois tinha um jeito “espivitado”. Ela me fez o convite e aqui aportei em 9 de janeiro de 1996. Cheguei para uma curta temporada no Paradiso Piano Bar, casa de sociedade entre Ary de Carvalho (jornal O Dia), Boni (TV Globo), João Araújo (Som Livre), onde realizei 374 apresentações. O lugar era frequentado pelo high society brasileiro, mas eles nem sabiam quem eu era, mas  o importante que gostavam da música italiana.
Com este contato com o público começou a avaliar as possibilidades de ficar aqui no Brasil?
Não. Tinha minha vida em meu país. Minha família, meus amigos, meu marido,  meus compromissos profissionais. Sabia que aqui tinha que cumprir minha agenda de shows e depois voltaria para a Itália.
Quando decide ficar no Brasil?
Comecei a pensar na ideia de morar no Brasil quando conheci São Paulo. O que prevaleceu na minha decisão foi o carinho do público. Sempre fui guerreira quando o assunto é música. Sempre quis mostrar meu trabalho. O que prevaleceu foi a paixão do público. Quando você sente que é importante para algo ou alguém é interessante. Senti aqui que era um elo entre todos os imigrantes, pois mostrei uma nova Itália para todos através da música. Para mim não importava uma casa cheia, mas sim a presença de cada um que optava em ir em minhas apresentações, pois sabia que nutriam um sentimento de paixão pela canção de minha terra.
Comente sobre sua discografia?
Meu primeiro disco gravei na  Itália e meu segundo álbum foi no Brasil, onde agora apresento o “Spritz”, que já considero o meu preferido. Esse trabalho agrada ao público e também agrada a mim. Todos que vivem nas grandes metrópoles e que gostariam de ter vivido os anos 50 e 60 e que buscam histórias são contagiados. É importante olharmos para trás para entendermos onde estamos, por isso vejo que este trabalho é um destaque. O projeto foi realizado em um ano e meio. No início do ano tínhamos 40 músicas selecionadas, mas fechamos 16. No final eu privilegiei os grandes cantores, dos quais resultaram 16 pérolas.
E a participação dos artistas brasileiras neste trabalho?
Convidei a  Isabella Taviani para um dueto comigo na canção “Metti Una Sera A Cena”;  o solista e acordeonista Toninho Ferragutti, em “Roma Nun Fa La Stupida Stasera”; o clarinetista Alexandre Ribeiro, em “Via Con Me” e “Tu Vuo’ Fa l’Americano” e o trombonista Bocato, “em Arrivederci”
Qual a expectativa para os shows que acontecem no Tom Jazz?
É algo difícil de responder, mas espero que as pessoas compreendam que é uma oportunidade parar e  viajar no tempo e relembrar os bons momentos. Será a primeira vez que entrarei no palco sem um texto. Quero que a música fale por si.


http://www.panoramabrasil.com.br/spritz-faz--uma-viagem-musical-a-italia-dos-anos-50-id95427.html 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Consulado da Itália em Belo Horizonte organiza uma apaixonada homenagem musical ao grande Cinema Italiano e seus mestres: das melodias do...